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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

As sinistras intenções ultra-liberais na Europa

A situação atual muitas vezes já nem me dá vontade de escrever, por achar que não estou a fazer mais que repetir aquilo que a esmagadora maioria já está farta de ouvir, e que pouco ou nada do que possa dizer acrescenta de facto alguma coisa. Contudo, este espaço pode ser não só um espaço de crónica, mas também um espaço de alerta de consciências.

E exatamente por isso deixo aqui a transcrição de um e-mail que recebi, pois transmite a 100% tudo aquilo que penso que são as verdadeiras intenções de muita gente que manda no Circo da Europa, alertando para aquilo que pode transmitir meia-dúzia de palavras escondidas num anexo de toda uma proposta. E os exemplos que se têm visto já há muito que me tiraram da cabeça a ideia de que pode ser tudo uma teoria da conspiração....




" A proposta de Directiva da União Europeia relativa aos contratos públicos, em apreciação no Parlamento Europeu, é um novo exemplo do processo em curso de destruição do chamado “modelo social europeu” e de regressão social e democrática do espaço europeu. Convertendo a União Europeia num espaço económico e político inteirament
e comandado pelos mercados financeiros e por um ultraliberalismo suicidário. É também uma boa ilustração de como o diabo está nos detalhes.

A intenção de liberalizar e privatizar a segurança social pública é remetida para um anexo (o Anexo XVI) dessa proposta de directiva, mencionado singelamente como dizendo respeito aos serviços “referidos no artigo 74º”, sendo aí listados os serviços públicos que passariam a ser sujeitos às regras da concorrência e dos mercados:

- Serviços de saúde e serviços sociais
- Serviços administrativos nas áreas da educação, da saúde e da cultura
- Serviços relacionados com a segurança social obrigatória
- Serviços relacionados com as prestações sociais

Entre estes, avulta a intenção expressa de privatizar a segurança social pública, a par dos serviços de saúde e outros serviços sociais assegurados pelo Estado. Um alvo apetecido do capital financeiro em Portugal e no espaço europeu, que há muito sonha com a possibilidade de deitar a mão aos fundos da segurança social e às contribuições dos trabalhadores, sujeitando-os inteiramente às regras da economia de casino.

E como o fazem? À socapa, para ver se escapa à atenção e vigilância públicas. Um mero anexo, que remete para um mero artigo, nesta proposta de directiva em discussão.

Só que o artigo em causa (o 74º) diz que “os contratos para serviços sociais e outros serviços específicos enumerados no anexo XVI são adjudicados em conformidade com o presente capítulo”. Neste, relativo aos regimes específicos de contratação pública para serviços sociais, estabelece (artigo 75º) a regra do concurso para a celebração de um contrato público relativo à prestação destes serviços. E logo de seguida, enumerando os princípios de adjudicação destes contratos (artigo 76º), é estabelecida a regra de que os Estados-membros “devem instituir procedimentos adequados para a adjudicação dos contratos abrangidos pelo presente capítulo, assegurando o pleno respeito dos princípios da transparência e da igualdade de tratamento dos operadores económicos…”

Uma perfeição. De um golpe, escondido num anexo e numa directiva que daqui a uns tempos chegaria a Portugal, ficaria escancarada a porta para a privatização da segurança social pública e para a tornar inteiramente refém dos mercados financeiros. Que são gente de toda a confiança e acima de qualquer suspeita. Como esta crise tem comprovado. Ou não andamos nós há muito a apertar o cinto (e a caminho de ficar sem cintura) para merecermos o respeito e a confiança dos mercados financeiros, nas doutas palavras de Coelho & Gaspar, acolitados pelos representantes no Governo português dos interesses da Goldman Sachs, António Borges e Carlos Moedas? E, como também nos têm explicado, o que é bom para a Goldman Sachs e os mercados financeiros, é bom para Portugal e os portugueses.

Este golpe surge, como não podia deixar de ser, sob o alto patrocínio desse supremo exemplo de carreirismo e cobardia política chamado Durão Barroso que, além de se ter pisgado do governo português com a casa a arder, tem no seu glorioso currículo o papel de mordomo das Lajes na guerra do Iraque e, agora em Bruxelas a fazer de notário dos poderosos, faz jus ao seu nome sendo durão ultraliberal com os fracos e sempre servente dos mais fortes. Como é bom ter um português em Bruxelas!

Claro que isto anda tudo ligado. Esta proposta de directiva tem relação com os golpes sucessivos infligidos à segurança social pública em Portugal, com a operação para já frustrada em torno da TSU, com os insistentes cortes de direitos sociais, com os recorrentes argumentos do plafonamento e da entrega de uma parte das pensões ao sistema financeiro. Afinal, a lógica ultraliberal de que o melhor dos mundos será quando, da água à saúde, da educação à segurança social, tudo e toda a nossa vida estiver controlada pela lógica dos mercados e do lucro. Ou seja, pela lei do mais forte. Que é também coveira da democracia. E o Estado contemporâneo abdicar, como tarefa central, da sua função redistributiva e de redução da desigualdade social e regressar à vocação residualmente assistencialista do Estado liberal do século XIX.

Como refere o deputado socialista belga no PE, Marc Tarabella, “privatizar a segurança social é destruir os mecanismos de solidariedade colectiva nos nossos países. É também deixar campo livre às lógicas de capitalização em vez da solidariedade entre gerações, entre cidadãos sãos e cidadãos doentes…”, lembrando os antecedentes da sinistra proposta designada com o nome do seu autor por directiva Bolkestein (Bilderberg's member), e exigindo a eliminação da segurança social desta proposta de directiva.

É preciso defender a Segurança Social (e a Saúde e a Educação públicas) como uma prerrogativa do Estado e um sector não sujeito às regras dos Tratados relativas ao mercado interno e da concorrência. Para não termos um dia destes os nossos governantes e os seus comentadores de serviço, com a falsa candura de quem nos toma por parvos, a explicarem que vão entregar a segurança social pública aos bancos e companhias de seguros porque se limitam a cumprir uma decisão incontornável da União Europeia, como já estão a fazer na saúde e na educação. Decisão pela qual, evidentemente, diriam não ser responsáveis. Como é próprio dos caniches dos credores. E acrescentando sempre, dogma da sua fé neoliberal, que nada melhor do que a concorrência e a privatização para baixar os custos e proteger os “consumidores”, aquilo em que querem converter os cidadãos. Como se vê nos combustíveis, nas comunicações ou na electricidade. Tudo boa gente.

É preciso levantar a voz e a resistência social e política à escala europeia contra este projecto, antes que seja tarde demais. Em defesa da Segurança Social pública e do Estado Social. Garante de democracia e de menos desigualdade social.

TVP "



Now there's rumors in the city that the banks might close
Close for a long holiday
And the papers are full of a new meltdown
Hold your breath, for the winds are all change

James - Charlie Dance

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Um retrato fiel e sem censura do nosso país... por um francês

Um artigo de Jacques Amaury, sociólogo e filósofo francês, professor na Universidade de Estrasburgo, a ler com olhos de ler.

" Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história que terá que resolver com urgência, sob o perigo de deflagrar crescentes tensões e consequentes convulsões sociais.
Importa em primeiro lugar averiguar as causas. Devem-se sobretudo à má aplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão e adaptação às exigências da união.

Foi o país onde mais a CE investiu "per capita" e o que menos proveito retirou. Não se actualizou, não melhorou as classes laborais, regrediu na qualidade da educação, vendeu ou privatizou mesmo actividades primordiais e património que poderiam hoje ser um sustentáculo.

Os dinheiros foram encaminhados para auto-estradas, estádios de futebol, constituição de centenas de instituições público-privadas, fundações e institutos, de duvidosa utilidade, auxílios financeiros a empresas que os reverteram em seu exclusivo benefício, pagamento a agricultores para deixarem os campos e aos pescadores para venderem as embarcações, apoios estrategicamente endereçados a elementos ou a próximos deles, nos principais partidos, elevados vencimentos nas classes superiores da administração pública, o tácito desinteresse da Justiça, frente à corrupção galopante e um desinteresse quase total das Finanças no que respeita à cobrança na riqueza, na Banca, na especulação, nos grandes negócios, desenvolvendo, em contrário, uma atenção especialmente persecutória junto dos pequenos comerciantes e população mais pobre.

A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosos penetram, já que os partidos cada vez mais desacreditados, funcionam essencialmente como agências de emprego que admitem os mais corruptos e incapazes, permitindo que com as alterações governativas permaneçam, transformando-se num enorme peso bruto e parasitário. Assim, a monstruosa Função Publica, ao lado da classe dos professores, assessoradas por sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadas dispendiosas e caducas, tornaram-se não uma solução, mas um factor de peso nos problemas do país.

Não existe partido de centro já que as diferenças são apenas de retórica, entre o PS (Partido Socialista) e o PPD/PSD (Partido Popular /Social Democrata), de direita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um novo líder, que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial abastado. Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade assinalável, mas com telhados de vidro e linguagem publica, diametralmente oposta ao que os seus princípios recomendam e praticarão na primeira oportunidade. À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como o anterior, mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas recomendações ao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal como a população em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio. Mais à esquerda, o PC (Partido comunista) menosprezado pela comunicação social, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensão inspirada na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe das realidades actuais.

Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que a democracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos.

Contudo, na génese deste beco sem aparente saída, está a impreparação, ou melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nesse fulcral e determinante aspecto. Mal preparada nos bancos das escolas, no secundário e nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não ser a que lhe é oferecida pelos órgãos de Comunicação. Ora é aqui está o grande problema deste pequeno país; as TVs as Rádios e os Jornais, são na sua totalidade, pertença de privados ligados à alta finança, à industria e comercio, à banca e com infiltrações accionistas de vários países.

Ora, é bem de ver que com este caldo, não se pode cozinhar uma alimentação saudável, mas apenas os pratos que o "chefe" recomenda. Daí a estagnação que tem sido cómoda para a crescente distância entre ricos e pobres.

A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e TV oficiais, está dominada por elementos dos dois partidos principais, com notório assento dos sociais-democratas e populares, especialistas em silenciar posições esclarecedoras e calar quem levanta o mínimo problema ou dúvida. A selecção dos gestores, dos directores e dos principais jornalistas é feita exclusivamente por via partidária. Os jovens jornalistas, são condicionados pelos problemas já descritos e ainda pelos contratos a prazo determinantes para o posto de trabalho enquanto, o afastamento dos jornalistas seniores, a quem é mais difícil formatar o processo a pôr em prática, está a chegar ao fim. A deserção destes, foi notória.

Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e por isso, "non gratas" pelo establishment, onde possam dar luz a novas ideias e à realidade do seu país, envolto no conveniente manto diáfano que apenas deixa ver os vendedores de ideias já feitas e as cenas recomendáveis para a manutenção da sensação de liberdade e da prática da apregoada democracia.
Só uma comunicação não vendida e alienante, pode ajudar a população, a fugir da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça mais célere e justa, umas finanças atentas e cumpridoras, enfim, a ganhar consciência e lucidez sobre os seus desígnios. "

As palavras não são minhas, mas refletem sem sombra de dúvida a minha visão sobre os problemas deste país. E, na falta de grandes palavras para escrever nos tempos que correm, porque não citar as de outros que pensam como nós?

"Fizeste cegos de quem olhos tinha
Quiseste pôr toda a gente na linha
Trocaste a alma e o coração
Pela ponta das tuas lanças

Difamaste quem verdades dizia
Confundiste amor com pornografia
E depois perdeste o gosto
De brincar com as tuas crianças

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar "

Jorge Palma - Portugal, Portugal


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mourinho e a irracionalidade no futebol

Sempre fui, e sempre serei, um apreciador de futebol. Admiro o nível de espetáculo e paixão que um jogo grande e bem jogado consegue proporcionar, criando um ambiente fantástico á sua volta que não deixa ninguém indiferente. Admiro e aplaudo o talento de quem com uma bola no pé consegue, numa cavalgada de 50 metros, num remate do meio da rua ou num passe cirúrgico, derrubar até a resistência das defesas mais fortes e mais bem organizadas, também elas merecedoras da minha admiração por todo o trabalho que exige jogar dessa forma. Seja o jogo mais aberto e alegre da Premier League ou o xadrez tático que impera em muitos dos jogos da Série A, é de futebol que se trata. O desporto-rei! Não devorando jogos atrás de jogos como fazia antes (nem pouco mais ou menos), ainda hoje gosto de parar para ver uma boa partida de bola.

Como qualquer adepto, tenho obviamente a minha queda, a fação que defendo (o Sport Lisboa e Benfica, no meu caso). E por muito que se fale em isenção, quem realmente se afirma de um clube não é, nunca, isento, por muito que o diga. Eu não sou, nem pretendo ser. Porque o futebol é para mim apenas um dos interesses que tenho na vida. Não é algo que me defina como pessoa ou como profissional, como tal posso tomar o partido que muito bem entender, e puxar por ele em casa ou no estádio.
Mas afirmar falta de isenção não é o mesmo que ser estúpido, nem é sinónimo de ultrapassar os limites da “irracionalidade saudável” que é o ser-se de um clube. E principalmente nos países em situação de crise latente na Europa têm surgido amiúde situações em que esses limites são largamente ultrapassados, desencadeando ações violentas sobre adeptos ou equipas. Muitas pessoas mostram uma tendência para descarregar as suas frustrações pessoais, os seus problemas de vida ou de trabalho em 90m de um jogo na sua equipa, ou em discussões acaloradas, chegando mesmo ao ponto da agressividade, com elementos de outras cores. Se a este grupo juntarmos um outro atulhado de gente com tendência para a violência gratuita (pois muitos fazem disso modo de vida, se é que me entendem) que é a maioria das claques de futebol, e postura irresponsável de alguns de alguns jogadores e dirigentes das equipas que incitam a comportamentos violentos e promovem a estupidez e ignorância, temos aqui um cocktail explosivo que urge ser controlado.

Mas quem de direito muitas vezes parece não estar interessado em refrear os ânimos, e a tendência para se cair no exagero alastra-se á mesma velocidade a que o desemprego aumenta. E por já ter crescido o suficiente para me considerar um adulto bem formado e não uma criancinha mimada ou alguém sem interesses na vida ou algo mais importante a que dedicar o tempo, opto pelo caminho oposto. Se uma conversa sobe de tom e passa a discussão, sou o primeiro a abandoná-la, e provocações pouco saudáveis são logo cortadas pela raiz. A bem dizer, tirando o meu clube que sigo sempre, o meu entusiasmo pelo futebol caiu a pique muito por estes comportamentos que refiro.

Comportamentos como estes que referi levam a episódios que qualquer pessoa de bom senso e com o mínimo de visão da realidade só pode classificar de lamentáveis e anedóticos. Foi o que aconteceu a José Mourinho este fim-de-semana. Quando uma ala do Santiago Barnabéu começou a cantar o seu nome, logo se desencadeou um inacreditável coro de assobios para o treinador que está no bom caminho para destronar o todo-poderoso Barcelona como campeão de Espanha, que teve uma Liga dos Campeões sem mácula, e que mesmo com a recente derrota em casa por 2-1 continua com algumas hipóteses de seguir em frente na Taça do Rei.

O que leva milhares de pessoas a brindar com assobios alguém que lidera com 5 pontos de vantagem um campeonato, e que ganha boa parte dos jogos de goleada? A resposta devia ser “Nada, isso não pode acontecer”, mas de facto é para mim tão simples como: o histórico de derrotas recentes com o Barcelona. A não ser que o português inverta a tendência de resultados negativos contra a equipa catalã, parece que esses “adeptos” continuarão a arranjar motivos para embirrar, até que sejam silenciados com conquistas no final da época (cenário que parece bem provável, porque mesmo sendo um admirador do futebol do Barcelona, Mourinho está a provar mais uma vez o extraordinário treinador que é, e não deverá deixar fugir mais um título para o seu extenso currículo).

E a Comunicação Social não se faz rogada em acompanhar a par e passo e instigar mais desenvolvimentos num episódio tão evitável quanto ridículo, criando um ambiente muito pouco suportável sobre uma equipa que, no global, não o merece. E ponho na palavra aspas porque, muito sinceramente, qualquer adepto que se preze de um clube não pode nunca colocar vitórias e derrotas frente a um rival histórico á frente dos resultados da sua equipa no global.    

Situações destas não são exclusivas de clube A, B ou C. São sim o resultado de toda uma conjuntura criada pelos factos que referi acima, e que minam aquilo que o futebol deve ser: um desporto entusiasmante e com uma disputa saudável, e não um cenário de guerra alimentada por um tipo de mentalidade que já devia ter acabado na Pré-História. Em Inglaterra fez-se um brilhante trabalho de limpeza, e agora é o que podemos ver nos estádios. Para quando seguir esse bom exemplo?

O meu goleiro é um homem de elástico
Os dois zagueiros tem a chave do cadeado
Os laterais fecham a defesa
Mas que beleza é uma partida de futebol
Bola na trave não altera o placar
Bola na área sem ninguém pra cabecear
Bola na rede pra fazer o gol
Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?
O meio-campo é lugar dos craques
Que vão levando o time todo pro ataque
O centroavante, o mais importante,
Que emocionante é uma partida de futebol

Skank - Partida de Futebol

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A doce tentação do tacho

Foi o tema mais falado da semana. Impulsionada pela “surpreendente” nomeação de Eduardo Catroga para a EDP, a de Braga de Macedo para chefe da diplomacia económica (o atencioso pai que ajudava as exposições da filha artista plástica), e a de Manuel Frexes e Álvaro Castello-Branco para a Águas de Portugal (autarcas do PSD e CDS, respetivamente, sendo curioso saber que a autarquia a que o primeiro preside tem um processo litigioso com essa empresa por dívidas), e pelo anúncio das 1193 nomeações \ reconduções feitas por este governo, a Comunicação Social voltou a abordar em força o tema dos “tachos” e “jobs for the boys”.

É tentação á qual nenhum partido ligado ao poder parece conseguir resistir, pois todos os novos Governos o têm feito, variando apenas a forma como o fazem.
Podia este Governo fazer o mesmo sem dar cavaco a ninguém, mas não. Para piorar (ainda) mais a sua imagem de Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho anunciou em campanha que iria combater ferozmente o clientelismo partidário, com os brilhantes resultados que estão a vir a público. Mais uma mentira pegada que nem uma conferência de imprensa em tom muito zangado a defender a competência de Catroga consegue apagar. Até porque há quem não ande a dormir e saiba da “competência” mostrada por esse senhor no Governo de Cavaco Silva (mais um do círculo de amigos desta excelsa personagem).

Conseguiu ainda na mesma conferência de imprensa usar como desculpa que “não é nenhum crime ser militante de um partido”. Pois não, mas para quem queria tanto ser implacável na luta contra o clientelismo, convenhamos que nomear APENAS militantes de PSD e CDS para os mais diversos cargos não ajuda muito a ser visto como alguém de palavra.
Mas, como refiro acima, este não é um problema de partido A, B ou C. É um verdadeiro cancro na classe política, com metástases tão extensas que não parece haver solução para este mal. Está enraizado na cultura partidária a cada mudança de partido no Governo (alguém está esquecido destas fantásticas declarações de uma dirigente do CDS, encorajando a corrida aos tachos dos seus militantes? Demitiu-se depois, na sequência de suspeitas de burla. Pois…).

Por este motivo, e apesar de como responsável do Governo ter que dar a cara e responder por vergonhas como esta, acho que este problema ultrapassa mesmo a esfera de qualquer atuação que o Primeiro-ministro possa tentar levar a cabo. As pressões internas para ocupar lugares dentro dos organismos públicos são tão grandes, os lobbys são de tal maneira fortes, que me parece que a cada 4 anos de legislatura estaremos a reclamar da mesma coisa.
Soluções para esta doença, de preferência rápidas, procuram-se. Desesperadamente!

 Alimenta-se do clientelismo
E quando as conversas lhe começam a cheirar mal
Resolve a questão
Puxa o autoclismo
Há muita cara podre em Portugal
E que lhe dá mais um bacalhau no Natal
Em terra de cegos, quem tem olho é Rei
Quem é esse Ernesto? Tu sabes bem, eu também!
Peste & Sida – Ernesto Desonesto

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

2012: Cada um por si?

E pronto, chegamos a 2012. Fazendo fé naquilo que tem sido apregoado aos quatro ventos na Comunicação Social e não só, este será o ano de todas as dificuldades e de todas as desgraças.

Ás primeiras badaladas do novo ano, os aumentos foram tantos que lhes perdemos a conta. Sobe IVA nas mais diversas áreas, sobem as taxas moderadoras em todos os serviços de Saúde, sobe a eletricidade, sobem as telecomunicações, sobem as rendas e o IMI… bem, é mais caso para perguntar: O que não sobe? E a resposta aqui é mais fácil: Os salários.
Portanto, nada de novo. O Governo, seguindo a cartilha imposta pela troika, continuará a apostar numa estratégia de austeridade em cima de austeridade, aumento em cima de aumento, cortes em cima de cortes. A inteligência não é a suficiente para perceber que isto NUNCA resulta, porque o CONSUMO DESCE, por consequência DESCEM as receitas que se esperariam obter? Sim, mas neste momento não se quer saber disso para os lados de São Bento.

A Grécia parece cada vez mais condenada a uma saída forçada do Euro, e a abertura deste precedente obviamente que vai colocar Portugal no ponto de mira. A partir do momento que os mercados e a sua “confiança” consigam fazer a primeira vítima na Europa, mais se esperam (como de resto, na minha opinião, é o objetivo desejado por este sistema mentiroso, fraudulento e terrorista baseado em agências de rating, que convenientemente ignoram que alguns estados da América possuem dívidas superiores a Portugal).
Realmente parece pacífico acreditar que 2012 não augura nada de bom, e que será pior ainda que noutros períodos de crise, pois pela primeira vez vemos Ministros e, pior ainda, o próprio Primeiro-ministro a sugerir a emigração a determinadas classes profissionais qualificadas deste país. Terá sido a primeira vez também que um Presidente da República desejou um ano “tão bom quanto possível”, com o maior dos semblantes de de resignação. Quando a uma má situação se junta uma sensibilidade governativa deste calibre, otimismo é coisa difícil de se ter.

Continuamos no entanto a levar com a propaganda governamental que 2012 será o “ano de viragem económica”, “o início do fim da crise”, e outros anúncios que tais. Pergunto-me se realmente poderemos acreditar em algo como isto, dado que, com tantas medidas destinadas a esmifrar até ao tutano a carteira nacional, sobreviver já parece um desafio de respeito, quanto mais fazer crescer a economia.
Perante esta linha de atuação, sou forçado a tomar como certo que com o Governo pouco ou nada poderemos contar para nos safarmos em beleza de um “ano difícil”. Podemos contar, sim, connosco e com aqueles que nos rodeiam. Se todos, mediante as nossas possibilidades, pudermos fazer algo por alguém que esteja mais necessitado, terá mais efeito que qualquer coisa que Governos como este e outros que por aqui passaram pensem fazer, do alto dos seus gabinetes.

Não vamos obviamente arranjar solução para os problemas ou melhorar o estado do País com pequenas ajudas, mas se com aquilo que pudermos dar\fazer melhorarmos a vida de algumas pessoas, acredito que já terá valido a pena. Porque estaremos a lembrar-nos de algo que a crise tem feito esquecer: um País é composto por pessoas, e não por capitais ou dívidas soberanas que estas não contraíram.

Society
We all know there's something wrong and we know it all along
Sincerity
You may think there's no one else till they put you on a shelf
Society
Pay your taxes stand in line help them plan for your demise
Society
Crush the weak to get your share cause nobody's playing fair
And no one cares
How long you pray makes no difference today

Pennywise - Society

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Natal: Esperança acima de tudo, pelo menos por um dia

E lá passamos mais um Natal, época que para mim é e sempre será muito especial, por trazer consigo uma aura positiva da qual precisamos sempre, hoje muito mais que noutros anos. Por muito que se reclame do exagerado materialismo associado, que não deixa de ser verdade, penso que é inquestionável para a maioria que não se trata de um dia como os outros, e á medida que vamos crescendo cada vez mais nos apercebemos que não é só aquele dia em que abrimos prendas.

Para além das prendas, dos doces e do convívio á mesa com a família, tenho a minha própria “tradição pessoal” de na véspera de Natal sair á rua de manhã e dar uma volta pela minha cidade, Viana do Castelo. Gosto muito de percorrer as ruas e sentir o espírito de Natal a cada esquina que viro. Consegue-se perceber que não há a correria típica do dia-a-dia (apenas aquela para comprar uma prenda de última hora), que o semblante das pessoas, apesar das dificuldades que possam passar, é muito menos carregado, e há mais sorrisos e mais paragens para conversar ou cumprimentar alguém que se conheça. Diz-se que no Natal há magia no ar e eu concordo: Não por causa de algo que Houdini tenha lançado algo de lá de cima, mas porque as próprias pessoas se transformam interiormente, e pelo menos por um dia tentam esquecer as agruras da vida e o sentimento de alegria e esperança impera.
Isto costuma ser assim todos os anos, mas neste em particular, por tudo aquilo que se anuncia para 2012, tinha uma certa curiosidade em perceber o que ia encontrar. Teria este Governo, ajudado também pelas asneiras de outros que governaram (?) Portugal nos últimos anos, finalmente conseguido lançar os portugueses numa depressão da qual nem o Natal escaparia? Iria eu ver as ruas vazias, e dar o meu tempo por mal empregue?

Cheguei a casa para almoçar contente pelo que vi e ouvi, confirmando que a minha dúvida era infundada: Apesar de muitos expressarem preocupação com o que aí vem (eu também o faço), uma data como esta continua a ocupar um lugar de destaque na maioria das pessoas. E não é o não se poder comprar aquela prenda caríssima para a qual o subsídio por inteiro ajudava, o ter que se comprar menos prendas e mais “lembrancinhas” porque o dinheiro não estica, ou mesmo o haver poupanças na decoração nas ruas que faz deste um Natal muito mais triste que os outros. Os mesmos sorrisos e a mesma pontinha de esperança continuaram presentes por mais um ano. Nem tudo é mau então…

Creio que será interessante partilhar convosco este excerto de uma conversa que ouvi numa loja onde entrei em busca de uma prenda que me faltava, e que reforça um pouco isto que falei:

CLIENTE: Pois é, então compro-lhe aqui esta mala para a minha mulher. Há que aproveitar para mimarmos enquanto ainda temos dinheiro.
LOJISTA: Pois é, vamos ver o que para aí vem.

CLIENTE: Isto está muito mal, e ainda vai ficar pior. E esses *** desses políticos não querem saber da gente. Já nem consigo ouvir aquele *** do Passos Coelho. Só promessas, e agora só nos enterra. E são todos assim!
LOJISTA: É verdade, mas olhe, sabe o que lhe digo? Vamos viver um dia de cada vez… Não vale a pena andarmos aqui angustiados, que assim nem vivemos direito. Vamos lidando com as coisas conforme elas apareçam.

CLIENTE: Mas uma pessoa vê as notícias e até fica maldisposta…
LOJISTA: Eu já nem vejo as notícias, que senão uma pessoa fica completamente em baixo. Isto está mau e aqui na loja também, mas se me for abaixo que será de mim, não é? Tenho o meu filho para criar, e com mais ou menos dificuldades a gente vai-se orientando… E é Natal, hoje pelo menos não há que pensar nisso! Temos mas é que festejar este dia.

CLIENTE: É um bocado difícil, mas você tem razão! Também tenho filhos, e no fundo temos que ir em frente, nem que seja por eles. Vamos lá a ver no que isto dá. Bom Natal para todos!

Saí de lá sem encontrar o que procurava, mas satisfeito com o que ouvi. A esperança de pessoas como esta e outras que passam momentos complicados merece sempre o nosso reconhecimento.
Á tarde, a cidade continuava em grande animação, com famílias e grupos de amigos reunidos no centro em salutar convívio. Entre um petisco e um copinho, as conversas, risos e felicitações sucediam-se. Um lamento aqui e ali, mas “não pensemos nisso agora, que hoje é Natal”. E lá cheguei eu a casa para me sentar á mesa convencido que, por mais dificuldades que tivermos que passar ou as chatices que tenhamos que suportar, há coisas bem mais importantes, por muito que meia dúzia de acéfalos maníacos da competitividade e do crescimento económico não gostem disso! E uma delas são as pessoas que nos rodeiam, e as datas especiais como esta.

“A vida é feita de pequenos nadas”, já dizia o Sérgio Godinho. Mas é sobretudo nestas alturas difíceis que esses pequenos nadas têm que ganhar ainda mais importância e tornar-se o quase tudo, para ajudar a contrabalançar o nosso estado de espírito para níveis positivos, por muito que um grupo de tecnocratas engravatados tentem deitar-nos abaixo com cortes e aumentos.
Por isso, lanço desde já um requerimento a Passos Coelho, Cavaco, e a qualquer outro Primeiro-Ministro e Presidente da República que venha no futuro: Façam a vossa parte e abstenham-se de aparecer na TV com mensagens de Natal e Ano Novo fabricadas e hipócritas que não fazem falta nenhuma. Não precisamos que vocês digam aquilo que não sentem, nós temos o espírito dentro de nós, e isso vocês não podem roubar nem taxar.


“I don't care about anything else
Christmas is almost here
And I don't care what the news man said
Christmas is full of cheer
I don't care about anything
Except hearing those sleigh bells a'ring-a-ding, ding
I wish it was Christmas today”

Julian Casablanca - I wish it was Christmas today

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Que futuro para o trabalho em Portugal?

Já era sabido, pelo menos por quem quisesse saber, que a entrada de Passos Coelho iria trazer para este país as ideias neoliberais que desde há uns anos para cá começam a tomar de assalto a Europa. E realmente ninguém pode acusar o nosso caro Primeiro-Ministro de não mostrar trabalho nessa matéria, tantas são já as medidas anunciadas para 2012.

O grande problema é que poucas ou nenhumas têm impacto positivo na economia, e praticamente todas têm efeitos destruidores para as famílias menos abastadas deste país, sugando os poucos rendimentos que ainda sobravam a estas, numa estratégia de empobrecimento geral que não é preciso ser nenhum doutorado em Economia para saber que não vai levar a lado nenhum, basta ter senso comum. Rima e é verdade! Mas o senso comum é algo que este grupinho de meninos sem noção da realidade que compõe o actual Executivo desconhece, pois a palavra “comum” causa-lhes arrepios (e não só pela ligação a comunismo).

E porque o ex-líder da JSD têm mostrado tanto trabalho no que toca a tornar a vida de muitos um inferno, é justamente de trabalho que hoje vos quero falar, e do rebuliço que têm sido a discussão á volta das medidas para esta matéria tão importante para a vida dos portugueses.

Uma das grandes bandeiras do neoliberalismo reside na flexibilização do mercado de trabalho. E, sou sincero, poderia mesmo não ter nada contra esta premissa. O mundo está em permanente mudança, e o mundo do trabalho não é excepção á regra. A noção de “trabalho para a vida” tende a desaparecer, porque as pessoas no geral estão mais ambiciosas e cada vez mais procuram melhores condições de remuneração, nem que isso implique sair uns quantos quilómetros da sua zona de conforto (não confundir com a zona de conforto a que Alexandre “Chico-Esperto” Mestre chama a situação de desemprego). E também porque há uma maior exigência do mercado, e o cumprimento de objectivos a que uma empresa se propõe não se compadece com a acomodação e estagnação dos seus trabalhadores, pois sem a sua evolução a empresa não evolui. Até aqui estou de acordo.

Mas, como parece ser tendência actual quando princípios teóricos e política se juntam, a ideia desta flexibilização é completamente subvertida por este Governo, que a tenta usar como móbil de uma série de medidas que têm dois objetivos principais:

- Redução da proteção aos trabalhadores – Por muito que fale em incentivar a empregabilidade, do Governo apenas se tem visto medidas para facilitar o despedimento. À falta de poderio eleitoral para alterar a fundo as Leis do Trabalho (penso que algumas implicariam uma revisão da Constituição, e para isso seria necessário uma maioria de 2 terços), a indeminização por despedimento foi reduzida 20 dias pro cada ano de trabalho. Não contentes com isso (este valor até poderia considerar adequado, pois o nº efetivo de dias de trabalho num mês anda á volta disso), vem aí uma nova redução desse valor para uns escandalosos 8 a 12 dias. Conclusão: Tarefa facilitada para o patrão na hora de despedir e pagar a compensação devida.

- Imposição de trabalho não-remunerado – Também essas já são conhecidas. Meia hora extra por dia no setor privado e remoção de 4 feriados, 2 civis e 2 religiosos. Mais algumas estarão de certeza na forja, e saberemos delas a seu tempo.

Primeiro que tudo estas medidas revelam uma confrangedora HIPOCRISIA, pois o trabalhar mais que as 40 horas estabelecidas já há muito que é uma prática comum em muitas empresas no setor privado, sem qualquer custo adicional para estas. Porventura, nalguns setores produtivos, nomeadamente o fabril, poderia ter alguns efeitos, porque quando é necessário é acordado o trabalho extra. E aqui entra a grande vantagem desta medida: Essa meia hora é gratuita para os patrões, não entrando para as contas.

Mais hipocrisia ainda na questão dos feriados, que veio á baila pelo medo das pontes. Porque no setor privado as pessoas fazem ponte tirando um dia das suas férias, ganhas através do seu trabalho, ao contrário do setor público, onde é costume ser um dia oferecido, que não conta como férias. Aqui sim, está um erro crasso que deve ser eliminado.

Se o transtorno é muito, uma empresa privada até pode mesmo optar por não conceder esse dia de férias, por razões de serviço. Conclusão: É tão somente mais um dia de trabalho ganho pelos patrões, e que, acima de tudo, deixa de ser pago a dobrar como antigamente.  Digno de palmas é também o facto de passarmos a ser dos primeiros países, talvez mesmo o primeiro, onde dias como a Restauração da Independência e a Implantação da República são considerados de tão pouca importância que não são feriado nacional.

Nada nestas medidas me surpreende nem me apanhou desprevenido, porque não é necessário ser um doutorado em Ciência Política (e eu não sou, nem sequer um bacharel) para se saber que esta vaga neoliberal anda de braço dado com o patronato, não sendo portanto necessário dar mais explicações para o facto de as medidas que têm sido anunciadas apenas beneficiarem um dos lados de uma relação que se deveria querer saudável entre patrão e empregado, tornando-o ainda mais dominante sobre o outro. E conhecendo-se a tendência para o abuso de muitos elementos do patronato, eles não tardarão a aumentar, fruto da política do medo legitimada pelas medidas que se anunciam.

There's room at the top they're telling you still
But first you must learn how to smile as you kill
If you want to be like the folks on the hill

A working class hero is something to be
If you want to be a hero well just follow me
                                                     John Lennon – Working Class Hero

domingo, 11 de dezembro de 2011

Justiça de pacotilha

Esta semana assistimos a um facto assombroso, algo nunca antes visto em Portugal, algo que irá mudar para sempre a imagem que temos da Justiça em Portugal: Dois criminosos foram apanhados, ouvidos, julgados e condenados numa questão de dias! O nosso país saiu da miséria jurídica em que anda metido para passar a ser uma referência mundial na área.
Os criminosos foram dois manifestantes que se excederam nos protestos na última greve geral de 24 de Novembro, e 6 meses de prisão com pena suspensa foi a condenação aplicada. Muito rápida e incisiva a atuação dos agentes de Justiça, numa clara tentativa de deixar um aviso sério a futuras manifestações em Portugal: Não serão perdoados exageros!
Foi então que acordei e percebi: Foi tudo um sonho! Tratava-se apenas de mais uma daquelas manifestações de justiça de pacotilha que volta e meia vamos vendo para se dizer que aqui também se condena e se faz justiça. Como aquela recente em que um jovem que foi condenado a 90 dias de prisão por ter feito um download ilegal de música, com posterior partilha na Internet, ou de um condenado a quatro anos e meio por roubar um telemóvel.
Não me interpretem mal: não apoio nenhum crime, de qualquer natureza que ele seja. Nem mesmo o roubar um pão quando se tem fome e não há dinheiro para comer. Tudo o que fuja ao legal num Estado de Direito deve ser sujeito a condenação, enquadrada devidamente dentro das circunstâncias e do tipo de crime.
Agora, acho de facto anedótico que, num país onde se demora ANOS a deduzir acusações, e outros tantos ANOS a terminar um julgamento que envolva figuras políticas ou mediáticas, onde se declaram inválidas escutas telefónicas perfeitamente comprometedoras, onde se permite que condenados coloquem recursos e mais recursos por factos acessórios para que estes demorem o tempo necessário para que o crime prescreva, e onde se absolvem corruptos porque apesar de terem tentado corromper a pessoa não tinha poderes para consumar o objetivo de corrupção (não acreditam? Então podem ler aqui.), de repente apareçam estes exemplos fantásticos de celeridade.
Sendo assim, os intervenientes no Apito Dourado, Face Oculta, BPN, Casa Pia e tantos outros, e todos os Isaltinos e Oliveiras e Costa de Portugal podem estar descansados, que quando chegarem condenações pelos seus atos (se alguma vez estes forem julgados), já terão partido para o seu eterno descanso, ou o processo em si já terá ganho tanto bolor que se tornará impróprio para consumo jurídico. A não ser que mudem de identidade e resolvam ir protestar para as escadas do Parlamento.
Corruption in the government
Corruption in the crown
No justice in a system
that is there to put you down
There’s a law for the rich
a law for people like you and me
The Exploited – Law for the rich

domingo, 4 de dezembro de 2011

Solidariedade e comunicação

Num período em que o número diário de dadores de medula aumentou de 5 para 500 devido ao muito falado caso de Gustavo, filho do futebolista Carlos Martins, e os pontos de recolha de alimentos para o Banco Alimentar se encheram de sacos com bens essenciais á sobrevivência de muitos, importa debruçarmo-nos um pouco, até porque estamos numa altura propícia para isso, sobre o tema da solidariedade em Portugal.
Tenho para mim, por muitos casos que tenho visto, que os portugueses são capazes de ser solidários quando são chamados a isso. E com isso não podemos deixar de ficar satisfeitos. Para além dos casos que mencionei, muitos outros a nível nacional (como por exemplo as inúmeras campanhas decorrentes da tragédia na Madeira) ou local (lembro-me por exemplo, do excelente resultado da Caminhada da Mulher em Viana do Castelo, que mobilizou mais de 1000 mulheres e angariou mais de 2000 euros para o Gabinete de Apoio á Família) provam que não falta por aí gente que esteja disposta a contribuir. Mas a maior parte desses casos tiveram um denominador comum: Um apelo maciço através da Comunicação Social e das redes sociais.
Nós, portugueses e não só, não parecemos ser muito proactivos na altura de procurar ajudar quem precisa, porque no nosso comum dia-a-dia estamos mais preocupados em congeminar formas de fazer esticar o dinheiro até ao fim do mês, em saber o que vamos fazer para jantar, em tratar da criançada, etc. Preocupamo-nos tanto com as nossas coisas que acabamos embrenhados no nosso pequeno mundo e isolados do exterior e dos problemas de quem mais precisa.
Isto não é por pura maldade, simplesmente são as consequências de vivermos no meio de uma sociedade que nos faz andar sempre a correr, sem tempo para parar para pensar em mais nada senão em nós. Uma tendência egoísta que a maioria segue, e que em alguns países chega a ter efeitos catastróficos (lembro-me de um caso passado não há muito tempo na China, onde uma criança de 2 anos foi atropelada por uma carrinha, e várias pessoas passaram por ela sem sequer pararem para a socorrer?).
Mas existem duas ferramentas que sendo corretamente usadas podem funcionar como elementos fundamentais no despertar de consciências: Televisão e Internet. Porque nunca nos separamos delas, e estão presentes na maior parte do nosso dia, em casa ou no trabalho. Então é por aí que as instituições ou as pessoas têm que atacar! E resulta, inúmeras correntes de solidariedade por pessoas em dificuldade foram formadas e deram muitos resultados porque simplesmente quem de direito tomou a iniciativa, divulgou o caso fez passar a mensagem.
Quanto melhor uma instituição de solidariedade publicitar o seu trabalho (através do seu site, ou de uma página no Facebook, por exemplo), mais ela é falada, e consequentemente melhores resultados pode tirar das suas campanhas. As pessoas sabem que elas existem, mas a maior parte não sabe nada sobre o seu trabalho o que elas fazem ou como as podem ajudar, nem vai lá bater á porta para perguntar.
Pensar assim está errado? Está! Mas não percamos tempo a tentar mudar a mentalidade de toda uma sociedade, ficando á espera que as pessoas venham ajudar do nada, ou a criticar a passividade e egoísmo da mesma. É tempo perdido, já sabemos que é assim, então temos é que jogar com as armas que nos dão. Usemos estas ferramentas das quais tanto dependemos em nosso favor, e em favor daqueles que ajudam os outros.
Quanto maior a divulgação, maior a ajuda! Então divulguemos!
You may say
I'm a dreamer, but I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one
John Lennon - Imagine

domingo, 27 de novembro de 2011

Os revolucionários da Internet

Numa sociedade dita normal e democrática, é normal que quando se atravessam tempos difíceis esta proteste. A larga maioria não fez nada para que tudo isto esteja a acontecer, sabendo que é profundamente injusto pagar pelos desvarios de um sistema capitalista baseado em ataques especulativos cirúrgicos de agências americanas, que baixam ratings e dão cabo de países europeus que tem dívidas inferiores a alguns estados dos Estados Unidos da América (tão credível que este sistema é, não acham?). Para além disso, não tem também culpa de uma irresponsabilidade política que já dura há décadas, da qual nenhum partido escapa, ou das brincadeiras que muitos bancos andaram a fazer com o dinheiro que tanto nos custou a ganhar.
Numa situação destas, a população une-se e protesta, e as manifestações aparecem um pouco por todo o lado, recorrendo aos meios legítimos para o fazer. Os movimentos crescem, cada vez mais aderem, e a situação obriga á reflexão daqueles que estão em cima para evitar que algum desastre ocorra. Mas isto tudo, repito, falando de uma sociedade dita normal. Na situação em que estamos, cada vez é mais difícil falarmos em normalidade, pois com um aperto cada vez maior não há como evitar que os limites sejam ultrapassados e entremos numa situação de tumultos sociais frequentes, com grupos especializados na matéria a juntarem-se ao barulho.
Já se viu disto na Grécia e Espanha, brevemente na França, e sabe-se lá mais onde. Mas no meio disto tudo, o nosso país ainda ainda vai escapando. E por um lado ainda bem, pois por princípio sou contra a violência, porque esta não resolve nada, e porque a História mostra-nos que há várias formas de manifestação de protesto que tiveram resultados estrondosos sem que para isso fosse preciso recorrer á violência, com Martin Luther King e Mahatma Gandhi como seus artífices principais.
Mas por outro lado, vou olhando para o que vai vendo ser escrito um pouco por toda a Internet (principalmente espaço de comentários de jornais e Facebook), e diria que são muitos os que não estão satisfeitos, e se prepara uma revolução sangrenta, com múltiplos apelos para pegar em armas, paus, ancinhos, facas e sei lá mais o quê, e irmos todos fazer a revolução para São Bento e sairmos de lá com a cabeça de Passos Coelho \ Sócrates \ Outro qualquer na mão. E que isto só não acontece porque o povo português é manso e só gosta de levar pancada, e não sei quê não sei que mais. É a nova forma de revolucionários que começa a aparecer: Os Revolucionários da Internet.
Sempre insatisfeitos com tudo e todos, descarregam impropérios numa simples caixinha de uns quantos caracteres, e diziam que vão fazer isto e aquilo, que vão resolver as coisas á lei da bala, fazem toda uma propaganda que nós somos um país de bananas e que são eles que vão mudar a situação, e que se juntem todos que vamos arrebentar isto tudo. E que fazem a seguir? Passam das palavras aos atos? Não, desligam o computador e vão dormir, que amanhã é dia de trabalho, e se chegam um minuto atrasados o patrão já lhes vai descontar no salário e vão ouvir o dia todo, sem que tenham coragem de retorquir. Nem greve se atrevem a fazer, pois as represálias não se fariam esperar. Depois, talvez revoltados com a sua própria falta de ação, repetem as alarvidades que disseram no dia anterior, num autêntico círculo vicioso.
A Internet deu-nos uma maior facilidade de podermos expressar as nossas opiniões (como nós os 5 fazemos aqui), muitas vezes podendo dizer aquilo que não podemos dizer publicamente. E isso contribuiu de forma muito positiva para a sociedade, criando uma coluna de opinião onde todos podem participar. Mas é também uma capa sobre a qual muitos se escondem para fazerem figuras tristes como neste caso em particular. Se todos estes espécimes admiráveis de facto se juntassem, tínhamos todos muito a temer. Mas isso não acontece por uma simples razão: estas pessoas NÃO são aquilo por que se fazem passar na Internet.
Pior que haver falta de ação popular (e até considero que sim, o nosso país tem alguma falta dela, embora ache que as manifestações da Geração Á Rasca e dos Indignados mostram que alguma coisa está a mudar), é haver quem dela reclame mas dela faça parte. Todos nós podemos e devemos fazer a nossa parte no sentido de mudar de rumo, e para isso temos diversas formas. Mas pouparmo-nos a este triste espetáculo e gastar esse tempo em algo útil é já por si só uma grande ajuda.

“A revolução não passa na televisão
Está fora de cena, fora da programação
Auto- proclamaste revolucionário
mas tens mais pinta para rei da pantufa
O mundo a girar e tu fechado no armário
Não sais de casa”

Peste & Sida – Revolução Rock

domingo, 20 de novembro de 2011

Cavaco Silva: Um grande sobrevivente. Até quando?

Tenho como dado adquirido que há muito tempo que a classe política deixou de ser um grupo de gente de ideais, com espírito de missão pela Pátria e com o objetivo de a levar a um bom rumo. O muito poder que acarreta estar ligado a este grupo privilegiado transformou o idealismo em oportunismo, e o espírito de missão passou a espírito de sobrevivência para garantir a manutenção na elite deste nosso cantinho. E ninguém domina essa “arte” tão bem quanto o impagável Professor Aníbal Cavaco Silva. Arte entre aspas, pois claro, pois esta palavra está normalmente ligada a coisas positivas.
E isto porquê? Porque para além de sobreviver como muitos o fazem, ainda o consegue fazer transportando sobre si uma aura de credibilidade e competência que só num país de memória volátil um político destes é capaz de manter. Claro que sou apenas uma gota num oceano de mais de 10 milhões de almas, mas posso-vos refrescar essa memória com um conjunto de contradições e atitudes reprováveis:
- É frequentemente visto como um economista de respeito, mas, partidarismos á parte (não apoio o PS nem PSD), foi sob o seu comando que este monstro da dívida que enfrentamos atualmente nasceu e viveu os seus primeiros anos como um bebé gordinho e saudável. Tempos de vacas gordas, onde biliões e biliões de euros destinados ao desenvolvimento do País foram desperdiçados em alcatrão e no luxo de alguns.
- Defende que o país precisa de uma agricultura e pescas sólidas, mas foi ele mesmo que deu a machadada final nestas, encaminhando os fundos que vinham da Europa para desenvolver … para pagar a não produção. Escandaloso para um país com todas as condições naturais para ser uma referência europeia nestas duas áreas.
- Foi também sobre o seu comando que a Função Pública se começou a tornar num fardo para as contas públicas, promovendo entradas nos quadros sem qualquer tipo de controlo, e assegurando a progressão automática nas carreiras sem qualquer relação com o mérito do trabalho, sendo isto válido para os professores também. Não espanta então que não queira interferir na avaliação destes, e que balbucie umas críticas envergonhadas aos cortes, dizendo que devia haver equidade… Remorsos?
- A Segurança Social atravessa dias difíceis muito pelas benesses dadas no seu tempo, que permitiu a muitos a reforma antes dos 50 sem qualquer penalização, e o direito á reforma de deputados que exercessem uns quantos anos de legislatura. Um paraíso para Marques Mendes e outros que tais.
- Parece querer demarcar-se a todo o custo de escândalos como o BPN, mas neste estão envolvidas pessoas com quem sempre andou de braço dado, como Oliveira e Costa e Dias Loureiro, estando o seu nome envolvido também como beneficiário de lucros no mínimo duvidosos.
- Cometeu o crime de recusar uma pensão de sobrevivência ao Capitão Salgueiro Maia, atribuindo a mesma a dois antigos inspetores da PIDE. Bom, se calhar não é de estranhar a quem recentemente se referiu ao Dia de Portugal como o “Dia da Raça”, designação dada nos tempos de Salazar.
- Conseguiu, na última campanha eleitoral, manifestar pena pelos cortes na Linha do Tua e lamentá-los, quando foi sobre o seu comando que se acabou com 800km de ferrovia… e foi dado o primeiro corte nesta linha. Daí o seu incómodo perante um cartaz que apareceu na sua visita, a perguntar se tinha vindo de comboio.
- Mostrou um confrangedor partidarismo, com uma série de críticas subtis ao PS devido á situação económica do país, e muitos dos seus famosos silêncios e ausências quando lhe cabia fazer o seu trabalho de moderar o ambiente político. Quando o Governo mudou de cor, pasme-se, a crise já passou a ser á escala europeia, e chegou até a criticar as agências de rating e a culpá-las por uma boa parte da crise... Mais vale tarde que nunca, mas fazê-lo apenas depois de a cor política do Governo já ser a do seu agrado é por demais questionável. E não o disfarça, pois em três meses de Governo PSD já falou mais que em 6 anos de PS.
E muito mais situações haveria para referir, mas creio que a minha ideia principal já passa com este enumerar de situações. É óbvio que este senhor não é o único culpado de tudo isto que vivemos, e que também podemos argumentar que algumas das situações são apenas mais uma página no nosso historial de desperdício que já vem desde os tempos em que usávamos os rendimentos das especiarias que vinham da Índia para importar coisas que poderíamos produzir aqui.
Agora acho de facto que estamos perante um verdadeiro caso de estudo. A forma como este “grande economista”, este “político de confiança” e este “exemplo de competência” consegue ainda ser visto, a julgar pelos resultados das eleições (eu sei que metade das pessoas não vota, mas os resultados finais são os que contam), como alguém a quem podemos confiar os nossos destinos, é “admirável”.
 Consegue-o através do silêncio e do não comprometimento quando deveria dar a sua posição sobre matérias sensíveis e de saídas de cena oportunas quando se vislumbra um desastre nas urnas. Resulta sempre, e esta sua história de sucesso já dura há mais de 20 anos, mesmo com um sem número de situações que custaria a cabeça a qualquer político menos sabido. Toda esta estratégia, se escrita num qualquer livro, seria com toda a certeza livro de cabeceira de todos os atuais candidatos a políticos em Portugal.
Eu dispenso, e continuarei sempre a colocar as aspas nas expressões que referi acima quando as tiver que aplicar ao Professor Cavaco Silva. Mas quem sou eu perante pelo menos dois milhões e meio de portugueses que nele votaram? Aceito isso mas não me associo, pois não preciso (ainda) de zinco para combater a falta de memória.
Gostam muito de falar
Aparecer em público
Na televisão
Mantém o povo estúpido
Com sorrisos de enfeitar
Não dizem nada de novo
Posam para a fotografia
Sorriem para o povo
Censurados – Srs. Políticos